Muitos são os desafios que temos enfrentado, as chuvas que já não cessam, abalos de terra que já também não cessam, a tristeza dos desabrigados fora e dentro do país. Perdemos valorosos combatentes, mães de família, crianças, enfermeiras, casas, empregos. A tragédia não nos espanta mais, não nos envolve, ela vem e a olhamos de fora, como se não estivéssemos na mesma vida nem respirássemos o mesmo ar. Passamos por ela e depois... ora, depois...O que nos faz sonhar assim desse modo supérfluo? Onde ficou nossa infância e nosso coração de soldado e bailarina? Naquele tempo o mundo nos esperava, e nós íamos. As tragédias eram avisos perenes. Viver era grave, era sério. Hoje eu sei que só o arrebatamento poético pode me salvar de um mim prosaico, cheio de parênteses, de artifícios, atraente personagem que vai andando e alegre se esquecendo. Hoje estou por isso me arrebatando de mim, e impunemente lendo Vinícius que diz: “A minha pátria é como se não fosse, é íntima doçura e vontade de chorar; uma criança dormindo: é minha pátria. Por isso, no exílio, assistindo dormir meu filho, choro de saudades de minha pátria. Se me perguntarem o que é minha pátria, direi: não sei. De fato, não sei como, por que e quando, mas sei que a minha pátria é a luz, o sal e a água que elaboram e liquefazem a minha mágoa em longas lágrimas amargas. Vontade de beijar os olhos de minha pátria, de niná-la, de passar-lhe a mão pelos cabelos... Porque te amo tanto, pátria minha, eu que não tenho pátria, eu semente que nasci do vento, eu que não vou e não venho, eu que permaneço em contato com a dor do tempo, eu elemento de ligação entre a ação e o pensamento, eu fio invisível no espaço de todo adeus, eu, o sem Deus! Tenho-te no entanto em mim como um gemido de flor; tenho-te como um amor morrido a quem se jurou; tenho-te como uma fé sem dogma; tenho-te em tudo o que não me sinto a jeito nesta sala estrangeira com lareira e sem pé-direito. Quero rever-te, pátria minha, e parta rever-te me esqueci de tudo, fui cego, estropiado, surdo e mudo, vi minha humilde morte cara a cara, rasguei poemas, mulheres, horizontes, fiquei simples, sem fontes. Ponho no vento o ouvido e escuto a brisa, que brinca em teus cabelos e te alisa, pátria minha, e perfuma o teu chão... Que vontade me vem de adormecer-me entre teus doces montes, pátria minha, atento à fome em tuas entranhas e ao batuque do teu coração. Vives em mim, como uma filha, que és uma ilha de ternura : a Ilha Brasil talvez. Agora chamarei a amiga cotovia, e pedirei que peça ao rouxinol do dia, que peça ao sabiá para levar-te presto este avigrama: “Pátria Minha, saudades de quem te ama...” (Vinícius de Morais, “Pátria Minha”).